Um Conto de Natal Português
E se Portugal recebesse a visita do fantasma do Natal futuro?
Começar ali pelo SNS e mostrar um país onde, finalmente, o acesso gratuito aos cuidados de saúde deixou de ser abusado; por estrangeiros, estróinas, viciados, desempregados, velhos, enfim, indivíduos que não contribuem para a sociedade de bem, composta por malta com empregos fixos, que consegue pagar um bom seguro de saúde e respetivos custos extra, em caso de patologias não cobertas pela apólice. Uma seleção menos natural, se quiserem.
Depois passar por um típico lar português, onde o marido trabalha para sustentar a casa e a esposa cuida do lar e da família com amor e dedicação. Até porque ele perde a cabeça facilmente e os miúdos não precisam de a ver com um olho negro. Outra vez. Mas a vida está cara e o Benfica não foi campeão, e ele nunca aprendeu a lidar com os seus próprios sentimentos e ela dá-lhe um desconto, porque as coisas são mesmo assim. Cada um tem a sua cruz para carregar.
E, se houver tempo, visitar uma escola - ali pelas nove e meia, para não interromper a oração da manhã - e conhecer o novo currículo através dos livros, perdão, folhetos escolares selecionados para os alunos que queiram ser mecânicos, eletricistas ou canalizadores. Das restantes tarefas, as que não são realizadas por IA são obra do diabo e ninguém precisa de saber física avançada para assar um frango ou de psicologia para criar um filho. Se abrires a mente demasiado, o cérebro pode-te cair.
Será que os nossos Scrooges apanhariam um cagaço de endireitar qualquer saudosista do Estado Novo? Ou será que olhariam para o cenário acima como quem vislumbra o paraíso na terra?
