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Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

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Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

18 de Janeiro, 2021

O Valor dos Meds (um trocadilho fraquinho)

Inês Reis

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São sete e meia da tarde e a dor de cabeça que vos acompanhou durante todo o dia parece determinada a rachar o vosso crânio ao meio.

Chegam a casa e, mesmo antes da rotina do Covid – descalçar sapatos, pendurar o casaco numa cadeira que não sai do hall de entrada desde março, tirar a máscara da rua, lavar as mãos durante exatamente dois minutos, colocar a máscara de casa e, finalmente, acenar, de longe, aos vossos entes queridos ao estilo da rainha de Inglaterra – dirigem-se ao armário dos medicamentos e agarram na caixa do paracetamol apenas para constatar que a mesma está completamente vazia.

Para além do folheto informativo que ninguém lê – até porque qualquer um se transforma num hipocondríaco profissional depois de passar os olhos por esses papelinhos do diabo – nem sequer encontram os blisters vazios no seu interior. E é nesse preciso momento que se passam da marmita.

Enquanto gritam profanidades dirigidas à pessoa anónima que teve a audácia de tomar o último comprimido sem ir comprar mais – que pode muito bem ter sido vosmecê – vão atirando para um saco todos os medicamentos daquele armário que passaram de validade em 2014 – mas não os que expiraram em 2020 que esses estão praticamente novos – todas as bisnagas secas e todas as caixas vazias que se foram amontoando desde que se mudaram para aquela casa.

Em seguida, viram-se para a vossa plateia – porque, sim, toda a família está à porta da cozinha a assistir ao vosso fanico em completo choque – e anunciam, alto e a bom som, que tudo aquilo deve ser levado para a farmácia e depositado no contentor Valormed para ser, posteriormente, destruído. “Não é pró lixo comum onde arriscam contaminar solos e lençóis de água, seus animais!” (nesta história, os caros leitores são todos versados em tratamento de resíduos)

É aí que se apercebem da cena que acabaram de protagonizar e, calmamente, agarram no casaco da rua, calçam os sapatos, e informam que vão à farmácia comprar paracetamol e deixar o saco para a Valormed.

“E para quem quiser, há restos d’ontem no frigorífico.”

Imagem: By George Cruikshank [artist]; George Humphrey [publisher] - http://collections.rmg.co.uk/collections/objects/128014, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=62103748

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