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Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

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Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

30 de Agosto, 2021

O Armário

Inês Reis

Durante alguns dias, naquele ano, acordei a pensar no armário dos medicamentos de outra pessoa; provavelmente, uma gaveta da cozinha onde, juntamente com a medicação habitual, ela deixou as estranhas caixas.

O marido era a sua mão direita e também a esquerda e, quando o derrame o atirou para uma cama, ela apareceu-me ao balcão da farmácia a perfeita imagem do desespero. Era cliente habitual e eu sabia muito bem que apenas conseguia assinar o nome depois de muitos anos de prática e que os seus filhos não chegariam de França a tempo de a ajudar. Então, repeti a posologia vezes suficientes para a saber de cor e perceber que não iria fazer a mínima diferença; ela não estava suficientemente bem para memorizar o que quer que fosse.

Aquela foi a primeira vez que tive de desenhar sóis, luas, pratos e talheres em caixas de medicamentos para tentar garantir que os meus utentes recebiam a medicação correta à hora certa. A primeira mas não a última.

A minha preocupação terminou três dias depois, quando ela voltou à farmácia com um saco cheio de medicamentos. Ele não iria precisar mais deles, disse ela. Eu dei-lhe os sentimentos e ela agradeceu-me; talvez por mais do que só pelas condolências.

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