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Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

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Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

06 de Setembro, 2021

Memórias do Desemprego

Inês Reis

A simpática voz no meu telefone diz-me que cheguei ao meu destino e eu celebro por ter chegado lá meia hora antes da hora da entrevista, apesar do calor insuportável de meados de agosto.

Enquanto tento descolar das costas a minha camisa chique das entrevistas, percebo que não consigo ver o nome da empresa em questão em nenhum dos prédios à minha volta. Boa…

Decido procurar mais um pouco antes de ligar para eles, mas depressa me apercebo que estou no sítio errado.

A indiferença com que a rececionista, do outro lado da linha, me diz que há dois anos que eles andam a tentar alterar o endereço no Google Maps deixa-me um bocadinho irritada, mas, naquela altura, eu estava mais preocupada em memorizar as novas direções que ela enumerava, como se eu conhecesse o tal "grande prédio azul" onde cortar à esquerda.

Tendo já aceitado a realidade de que iria chegar atrasada à entrevista, fico cada vez mais ansiosa ao perceber que estou total e absolutamente perdida.

É, então, que ligo novamente para confirmar a morada e me é dito para usar o link do site e eu pergunto-me por que raio ela não pensou em partilhar essa informação antes, mas, ainda assim, sigo o seu conselho.

Só que o maldito GPS insiste em mandar-me para uma estrada de terra. Consigo evitá-la nas primeiras passagens, mas, com o aproximar da hora da entrevista, tomo a decisão executiva de confiar na tecnologia.

Apercebo-me que o carro está atolado um bom meio segundo antes de ouvir o barulho familiar de pneus a derrapar na areia, e entro em pânico, na medida apropriada.

Antes de desligar o carro, ainda consigo enterrá-lo mais alguns centímetros, numa tentativa inútil de sair dali. Mas, é então, que me lembro que passei várias vezes por uma oficina de mecânica nas minhas muitas voltas no carrossel, e saio disparada a correr em busca de ajuda.

"Vi logo que ias ficar atolada assim que te vi passar", foi a primeira coisa que o simpático cavalheiro me disse, assim que cheguei à oficina. Decidi não responder, visto que o homem já estava a entrar na sua camioneta para tirar o meu carro da sarjeta.

Entre os gritos para carregar no acelerador "com jeito” e o telefonema para a empresa a explicar o motivo do meu monumental atraso, lá conseguimos desenterrar o carro, são e salvo. Já a minha roupa e sapatos, nem por isso.

Eu chego, finalmente, à entrevista e uma outra senhora, muito compreensivamente, encaminha-me para a casa-de-banho. Passo a cara por água e sento-me na sala de espera, mas, por mais que tente, não consigo perder o tom corado-rubi que se me apoderou do rosto.

A entrevista em si é suficientemente normal, considerando as duas horas de aventura que eu tinha acabado de ter, mas eu já estava desempregada há tempo suficiente para saber que não ia haver segunda volta.

Quando chego a casa, a exaustão, finalmente, toma conta do meu corpo e só tenho disposição para um banho, antes de me estender na cama a ver um filme, na tentativa vã de salvar o resto do dia. E é então que recebo um novo email.

Uma resposta a um pedido de emprego público, da qual me tinha esquecido completamente, a explicar que não me qualificava para o cargo "conforme o disposto no ponto 1 do artigo 3", e não consegui evitar uma gargalhada.

Se a minha vida fosse um guião, tinha encontrado o meu final.

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