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Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

29 de Setembro, 2025

Correlação não implica causalidade

Inês R.

As mulheres grávidas tomam paracetamol porque é dos poucos medicamentos seguros para o feto, quando tomado de acordo com a prescrição.

São também as mulheres grávidas que, eventualmente, têm bebés que podem ou não ser diagnosticados como estando no espetro do autismo.

Tirar daqui a conclusão de que o paracetamol causa autismo é como dizer que o nosso vizinho estampou o carro porque viu um gato preto a atravessar o caminho nessa manhã.

Só porque as variáveis "paracetamol" e "autismo" estão relacionadas (pela sua ligação às mulheres grávidas), não significa que uma cause a outra.

Uma afirmação destas, carece, obrigatoriamente, de confirmação científica. Algo que não aconteceu antes do amigo Mister President a ter disparado em direção ao mundo em geral (até porque o contrário é verdade).

Mas, que engraçado, não eram as vacinas que causavam autismo? Agora é o paracetamol, também? Estranho... É quase como se esta malta não faça a mais pálida ideia do que está a falar e ande só a arranjar soluções para problemas que foram os próprios a inventar.

22 de Setembro, 2025

Linguagem Científica

Inês R.

Utilizar uma linguagem, convenientemente, simplista sobre certos estudos científicos (para justificar o corte do seu financiamento) não é inocente. E é uma das (muitas) táticas usadas pelo atual governo dos EUA para garantir o apoio dos cidadãos às pressões que tem colocado sobre as universidades onde estes estudos se realizam. (Fonte)

"Se querem continuar a receber os nossos dólares, só têm de deixar de parte aquelas políticas parvas de inclusão, tá?" 

E, atenção, é compreensível que muitos Americanos concordem, por exemplo, com o cancelamento de um projeto de investigação a custar milhões ao estado e que "apenas" estudava como uns caracóis venenosos matam as suas vítimas. Mas talvez a sua opinião se alterasse se lhes fosse explicado que esse estudo resultou na produção de um medicamento não-opióide para a dor crónica. (Fonte)

Trocado por miúdos, trouxe a possibilidade de tratar pacientes que sofrem diariamente com níveis incríveis de dor (e que não respondem aos analgésicos comuns) sem o risco de adicção - que é muito elevado quando falamos de opióides (medicamentos da família da morfina).

Esta tendência está muito associada à ideia de que a utilização de palavras "caras" é uma forma de enganar o povo; que é impossível perceber o que um artigo científico quer dizer, por entre aqueles termos de sete e quinhentos, e que, portanto, a intenção só pode ser roubar dinheiro aos contribuintes enquanto dão cabo do mundo como o conhecemos.

Durante a pandemia, andou a circular, pela Internet, uma lista de ingredientes, com nomes estranhíssimos, que se dizia ser a composição de uma vacina contra a Covid, o que enraiveceu a maioria dos internautas e fez surgir inúmeros pedidos para o seu desaparecimento. A grande revelação era o fato daquela ser a lista de "ingredientes" que compõe uma maçã. (Fonte)

E é claro que o cidadão comum não tem de estar familiarizado com nenhum destes termos. Mas é importante que aprenda a fazer a sua própria pesquisa - principalmente, quando a fonte da informação é uma publicação nas redes sociais rematada com um "acredita, meu!". 

Mas, mais que isto tudo, é preciso responsabilizar as entidades, os governos e os meios de comunicação que utilizem a linguagem científica como ferramenta de desinformação.

15 de Setembro, 2025

Sobre Pilates

Inês R.

Eu não gosto de criticar o que não conheço e sei que é muito mais fácil espalhar uma notícia negativa do que enaltecer os positivos do que quer que seja, mas - e apesar de ter cortado relações com os ensinamentos deles -, tenho de reconhecer que o Pôncio fica muito mal na fotografia. O fulano-

Oi? PilatEs? Ah, espera! Agora, sim, faz sentido! Eu bem que estava a achar estranho pedirem a uma ateia para falar de Pôncio Pilatos, mas quem sou eu para saber o que "vende," né?

Então, Pilates.

Pessoalmente, nunca fiz. Mas hoje ao final da tarde tenho uma aula experimental e, se sobreviver, a ideia é continuar a fazer. 

Porque preciso de exercício que aumente a minha flexibilidade e me tonifique os músculos, sem exagerar no cárdio, e todas as recomendações apontaram para aquele tipo de aulas de grupo, em particular.

E, na verdade, porque preciso da motivação (ou pressão) de um grupo para garantir que mantenho a rotina e não ceda à tentação de ver antes um filme e deixar o treino para "amanhã".

Logo se há de ouvir dizer se correu bem.

08 de Setembro, 2025

Sobre Vigaristas do Amor

Inês R.

Há tempos escrevi sobre como quase subscrevi a um plano de saúde pelo telefone - algo que, até àquela data, podia jurar a pés juntos que nunca iria acontecer - o que me dá uma certa perspectiva e humildade para falar sobre a série documental Amor, Fraude, Vingança, da Netflix.

Porque a primeira reação da maioria de nós é julgar estas mulheres (na sua maioria) como umas tolas que se deixaram enganar, quando as evidências que os fulanos eram uns vigaristas estavam todas lá.

Acontece que, para quem está involvido na situação, as pistas não são assim tão claras, e estes "artistas" sabem exatamente como criar a cama perfeita para tornar mulheres adultas e inteligentes cegas a todas elas.

Love-bombing ou bombardeamento de amor - a primeira fase dos planos de ação de todos eles - consiste em fazer a vítima sentir-se a pessoa mais amada à face da Terra; mensagens constantes, declarações de amor profundo e gestos românticos que comprovam a veracidade daqueles sentimentos. Geralmente, direcionado a mulheres em fases vulneráveis das suas vidas e especialmente talhado para ser exatamente aquilo que elas procuravam num parceiro.

Pouco tempo depois do início da relação (falamos de um ou dois meses), surge uma situação grave (uma doença, uma crise no trabalho, uma conta bancária bloqueada, etc.) que exige uma quantidade de dinheiro que eles não têm como conseguir, e é aí que começam os pedidos de empréstimo (inicialmente de pequenos valores) que se vão tornando constantes e nunca chegam a ser ressarcidos.

Imaginem que a pessoa por quem estão apaixonados corre risco de vida ou de perder o seu negócio se não lhes transferirem uma quantia de dinheiro, já. Qualquer pessoa iria puxar das poupanças ou mesmo fazer um empréstimo ao banco para evitar o pior. Até porque muitos destes fulanos se apresentam como bem de vida e que será apenas uma questão de tempo até devolverem o valor por inteiro.

Agora imaginem que, daí para a frente, as "crises" se multiplicavam e a necessidade de mais e mais dinheiro vos deixava endividados em milhares. A dada altura, o investimento monetário e pessoal seria tanto que admitir que algo estaria errado seria admitir o nosso próprio falhanço.

É por isto que, na maioria das histórias representadas no documentário, foi necessária uma prova clara do engano que estavam a sofrer para fazer estas mulheres acabar os relacionamentos; um extrato bancário com inúmeros levantamentos em ATM que a dona da conta não tinha efetuado, uma mensagem de texto no telemóvel do vigarista a referir-se à companheira como uma "fonte que secou," um "investimento" de centenas de milhares que deixou de dar dividendos e a falta de contato ou frieza de pessoas que antes enviavam multiplas mensagens afetuosas por dia.

Curiosamente, muitas das mulheres (e o homem) apresentadas na série estavam com uma nova pessoa ou continuavam à procura do amor, o que exemplifica perfeitamente a importância que damos ao sentimento enquanto sociedade; até quando quase nos leva à ruina.

Se posso garantir que algo do género nunca acontecerá comigo? Claro que não. Mas que estou muito mais atenta a certos comportamentos e ainda menos convencida a encontrar o amor pelas redes socias, podem apostar que sim.

01 de Setembro, 2025

Uma questão de respeito

Inês R.

Tinha um colega no secundário que todos conheciam como Martelo. Como alcunha não era das piores, mas sempre que me dirigia a ele, diretamente, tratava-o pelo nome próprio. Por uma questão de respeito.

Uma conhecida minha voltou a usar o sobrenome de solteira depois de se divorciar. Nem sequer me passou pela cabeça voltar a tratá-la pelo sobrenome do ex. Por uma questão de respeito.

E quando alguém me pede para usar determinados pronomes para me dirigir a si - seja em pessoa, ou no mundo online -, eu uso. Porque o meu sentido de respeito pelos outros não é condicional.

A forma como cada pessoa se identifica e escolhe viver a sua vida apenas a si diz respeito; a nossa parte é, apenas e só, respeitá-la.

Até porque, não, ninguém nos quer forçar a mudar a língua portuguesa, ou os nossos próprios pronomes, mas é sempre mais fácil espalhar o medo pelo diferente do que é compreendê-lo, não é?