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Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

25 de Agosto, 2025

A Vida São Dois Dias

Inês R.

As bonecas da minha prima nunca sairam das suas caixas. Já as minhas foram todas sepultadas em gavetas, nuas e com os seus longos cabelos pintados com borronas ou cortados pela nuca. E ainda bem.

As ocasiões especiais - aquelas para as quais guardamos o faqueiro da avó e a garrafa de vinho oferecida pelo patrão e aquele par de sapatos nosso preferido -, podem nunca acontecer e, no entretanto, os anos passam e nós permanecemos a ensaiar para este espetáculo sem data de estreia que é a nossa vida.

Por isso, sublinha as tuas passagens preferidas, dobra o canto da folha da página onde ficaste na noite anterior. Os livros são para ser lidos.

Usa as tuas calças de ganga favoritas todas as semanas. A vida já é desconfortável o suficiente, sem que te coloques no seu caminho desnecessariamente. 

Põe a mesa com a loiça "boa" numa terça-feira qualquer, usa o colar que era da tua avó para ir ao supermercado, convida os amigos para jantar só porque sim.

E, de caminho, pinta aquele quadro, escreve aquela história, inscreve-te naquele curso, muda de profissão, de casa, de parceiro, de vida; porque ela é demasiado curta para desperdiçar e muito longa para apenas sobreviver.

Enfim, aprecia as pequenas coisas que te trazem felicidade, enquanto tens pequenas coisas para apreciar. Nem todos têm a essa sorte. 

18 de Agosto, 2025

Paredes de Coura: a minha primeira vez

Inês R.

Como a maioria das primeiras, foi cutelosa e programada; que é como quem diz, foi apenas por um dia, o último.

Sabia que não iria ter uma noite descansada - ainda que dormir num saco-cama me fosse familiar, havia toda a questão do festival a acontecer à minha volta -, mas as três horas de viagem fi-las pela experiência - acampar numa floresta flipada, banhada por um ribeiro forrado a gente gira, e com boa música, literalmente, para onde quer que nos virássemos.

Depois de encontrarmos duas parcelas (semi-)contíguas, de dois metros quadrados cada, onde pernoitar, e de travarmos amizades para a vida na fila prás tripas de chocolate, fomos conhecer o recinto para tentar delinear o plano de ação para noite.

Imediatamente, ficou decidido que ir ao Paredes de Coura e não assistir ao concerto dos headliners seria como escrever sobre os Franz Ferdinand e não fazer uma piadinha sobre o quão bem conservado está o arquiduque. Mas deixámos as atuações seguintes para a malta que ainda não estala dos joelhos de cada vez que se agacha para "descansar as pernas" - o Xinobi que me desculpe (ainda que eu não o possa perdoar pelo set de horas...).

Desta vez, não fiz o trabalho de casa; não fui ouvir os artistas que não conhecia do cartaz, como que em preparação para o exame final. E venho de lá com novos favoritos.

Os Cassete Pirata já me eram sobejamente conhecidos para reconhecer algumas das canções pelos primeiros acordes, e, ao vivo, aquela malta não tem nada de cópia não autorizada. Boa vibe, ainda que o set tenha sido curto, e uma mensagem importante.

Cassete Pirata.jpg

Conhecia a amiga Ana Frango Elétrico de voz; já anda a rodar (pun not intended) pela rádio nacional há uns tempos. Mas, em palco, aquela voz melódica e aquele ritmo vindo do lado de lá do Atlântico fizeram o que as ondas FM ainda não tínham conseguido: fazer-me procurar mais música da rapariga da churrascaria da moda.

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Viva Hinds, sim senhora! As miúdas de Madrid foram uma agradável surpresa e uma lufada de ar fresco (depois das introspetivas Chastity Belt - com uma vocalista que fazia lembrar uma Courtney Love circa Celebrity Skin) no palco secundário. Com muita energia e a sinceridade de quem já esteve do outro lado (literalmente! Enquanto fans e artistas aspirantes a atirar o seu primeiro CD à sua banda favorita a atuar no Paredes), conquistaram o coração e o ouvido da audiência, incluindo o meu (ou não estivesse eu a ouvi-las enquanto vos escrevo).

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Fui assistir ao set da Sharon Van Etten & The Attachment Theory com a certeza que já tinha ouvido aquele nome em algum lado e, lá está, conhecia bem a canção que fechou a atuação: Seventeen. Se não seguirem nenhuma outra das minhas sugestões, ao menos, escutem esta canção. E, se gostarem da cantiga, espreitem o resto do catálogo. Eu vou fazer o mesmo.

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Tenho de confessar que curti o grunge ativista dos americanos DIIV (uma mensagem política é sempre mais bem recebida em formato de anúncio publicitário filmado num andróide de primeira geração) e os britânicos Warmduscher fizeram-me repensar a minha distância do rock mais pesado (ou post-punk, como eles se caracterizam) - especialmente, com um frontman tão carismático e divertido, ainda que me tivesse dado vontade de atirar uma Mebocaína para o palco.

O entusiasmo sentia-se no ar (pun very much intended), quando a mutidão se abancou em frente ao palco principal para ouvir os AIR. E os rapazes não desapontaram. A música eletrónica não costuma ser a minha cena, mas o duo francês fez muito mais que carregar em botões por uma hora e picos; com uma bateria e guitarras elétricas em palco - e um espetáculo visual de nos fazer repensar a nossa política de say no to drugs -, deixaram-me uma cliente satisfeita - e que agora pode dizer que viu os AIR em concerto.

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Antes de ir procurar um lugarzinho de pé no ervado, fomos comer qualquer coisita - havia música de fundo que me fazia abanar a cabeça, mas não o suficiente para me fazer abandonar o banco que soube que nem ginjas -, e, então, de estômago aconchegado, partimos para o fim da (nossa) noite.

Os Franz Ferdinand tinham feito parte da banda sonora da minha juventude - no sentido em que conseguia identificar todas as mais conhecidas, mas apenas sabia trautear os refrões e cantar os na na na's. Ainda assim, esperava um bom concerto, e um bom concerto foi o que encontrei.

Os "cotas" fizeram a festa! Puseram todos os seus hits a trabalhar e receberam do "Paiedes de Coira," como o vocalista gritou vezes sem conta, toda a energia que restava no recinto (que, surpreendemente, ainda abundava, às primeiras horas da madrugada de domingo).

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 Após a atuação da banda, foi passada uma compilação dos melhores momentos do festival - repleta de boa disposição e serpentinas -, rematada com uma largada de balões que despertou, até no mais rabugento dos adultos, a criança que havia em si.

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Se volto lá? Provavelmente! Com um quarto de hotel reservado, o fitness em dia e a certeza de que vão ser horas muito bem passadas.

Bem vindos ao Couraíso, sim senhora!

 

Todas as fotografias são da minha autoria. E não infringem direitos de autor, não que alguém as quisesse usar.

11 de Agosto, 2025

Vou ter um filho!

Inês R.

Assim que encontre um parceiro que não me trate como uma máquina parideira, que não tem, sequer, o direito a sair com as amigas.

E que as maternidades não fechem aos fins de semana, em modo lotaria.

E o direito à amamentação deixe de ser posto em causa.

E haja garantia que tenha uma creche onde meter a criança.

E escolas públicas onde se aprenda mais do que "a defesa da família e dos valores tradicionais".

E a combinação do meu ordenado com o do pai da criança seja maior ou igual às despesas básicas da vida.

E o planeta não esteja a ponto de entrar em mais um evento de extinção em massa.

Mas, mais importante que tudo, assim que mude de opinião.

Porque eu nunca quis ser mãe e não me parece que vá ser agora que vou querer.

E quem acha que é meu dever enquanto mulher, que me explique onde é que isso está escrito. Sem nomear livros de ficção ou religião escritos por homens, claro.

04 de Agosto, 2025

A minha mãe é que tinha razão

Inês R.

"Não aceites as cookies de nenhum sítio da Internet" é o novo "não aceites doces de estranhos".

O mundo online atual apresenta, quase, mais perigos que uma rua sem candeeiros, depois das onze da noite, para uma mulher desacompanhada.

Entre mensagens de filhos que acabaram de partir o telemóvel e dívidas ao fisco que têm, impreterivelmente, de ser pagas por MB Way até ao final do dia, já ninguém consegue alugar uma casa de praia (ou comprar um pijama) sem contratar os serviços de um advogado ou, pelo menos, mandar um email à DECO PROteste.

A nossa informação pessoal é guardada, usada e partilhada sem o nosso conhecimento (quem é que não passou já horas da sua vida a bloquear números "suspeitos" no telemóvel) e as nossas fotografias e mensagens andam a servir de manual escolar a tudo quanto é programa de inteligência artificial, mas é impossível não ter qualquer presença online.

Se não tens redes sociais, fazes pagamentos na aplicação do banco; se não fazes compras online, fazes o IRS automático no site das Finanças; e se ouves a tua música toda em vinil, tens, pelo menos, um endereço de email, associado a um assistente de IA, com um nome bué fixe, e que faz não se sabe bem o quê com as tuas conversas.

Ao contrário do que todos os parágrafos anteriores podem fazer parecer, eu não sou anti-tecnologia. Veja-se o corrente texto, escrito e publicado na Internet. Mas também não acho que valha tudo em nome do progresso da civilização.

Portanto, na dúvida, vou continuar a seguir o outro conselho da minha mãe: Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.