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Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

30 de Junho, 2022

Sobre Gordas

Inês Reis

Há uma moda entre certos comediantes (normalmente, homens) de criticar o movimento que quer tirar a vergonha associada aos gordos. O argumento é sempre o mesmo: ser gordo faz mal à saúde e não temos de elogiar quem se anda a matar de propósito.

E eu até percebo o raciocínio (na sua essência), mas não aceito a forma como é feito.

Ninguém escolhe ser gordo. E se deixar de o ser fosse a coisa mais simples do mundo, vocês, comediantes gordos ou ex-gordos, com, literalmente, milhões no bolso e todo o tipo de tratamentos à vossa disposição, não tinham levado tanto tempo a lidar com o problema (se lidaram sequer).

“Deixem-me que vos apresente: Comediantes Gordos, esta é a Saúde Mental, Saúde Mental- Oh, já conhece os Comediantes Gordos? Ah, pois, faz sentido.”

Agora, este tipo de comentário é, geralmente, direccionado a mulheres gordas que decidiram parar de deixar que a sociedade ditasse como os seus corpos devem ser - para celebrar a suas vidas da melhor maneira possível - e que, algures pelo caminho, se tornaram alvos extremamente fáceis para outros gordos com influência (e seus seguidores) que acham que se gozarem com as suas próprias falhas passam a fazem parte do grupo dos fixes.

Mas não me interpretem mal, eu não vejo mal nenhum em se fazer comédia com o tema, desde que o objecto da piada seja o correto.

Pessoalmente, acho hilariante que um homem tenha mais abertura para fazer uma palpaçãozita da próstata do que do cérebro (leia-se consulta de psicologia).

27 de Junho, 2022

Assistentes Sociais de Bancada

Inês Reis

“Dois anos! Sabiam de tudo há dois anos e não fizeram nada!”

Não há volta a dar-lhe, soa mal.

Se um gestor fabril soubesse que uma máquina estava com problemas há anos e essa máquina viesse a causar um acidente fatal, esse gestor, perdão, o seu subordinado imediato, deveria ser imediatamente responsabilizado.

Há um problema mecânico que pode ser resolvido (eu sei que tem custos, mas, adivinhem lá, ter uma empresa a funcionar costuma ter muitos desses) e a sua resolução pode salvar vidas; só há que o fazer.

Simples.

Acontece que quando uma criança é sinalizada pela segurança social, o procedimento a seguir mais parece um mapa dos comboios regionais Portugueses: são poucos e com tantas paragens que desanimam qualquer um.

Em teoria, a criança passa a ser seguida por assistentes sociais - mas só se a família permitir e houver técnicos suficientes – e, só então, se a situação se agravar, é ponderada a retirada da criança dos cuidados dos pais para ser entregue a uma instituição estatal – onde as condições podem ser potencialmente piores, já que famílias de acolhimento, viste-as – pelo que é priorizada a manutenção da criança na casa onde sempre viveu – o que não deixa de parecer uma troca de um mal desconhecido por um mal conhecido… - onde as inexistentes visitas pelos teoréticos técnicos relegam para a privacidade do “só quem está no convento” abusos e negligências indesculpáveis até que…

…mais uma notícia “de abertura de telejornal” choca o país e voltamos todos a memorizar o significado da sigla CPCJ.

Infelizmente, não há soluções mágicas e estes problemas sistémicos (ainda que bem identificados) vão levar anos a abordar, se alguma vez os conseguiremos resolver, porque o que não faltam no mundo são questões absolutamente prementes (!) que lá terão de esperar pela sua vez no grande guichet da vida.

Ainda assim, parece-me demasiado vil comparar as vidas de crianças inocentes com a fila para a peixaria.

23 de Junho, 2022

A Arte da Persuasão

Inês Reis

A única vitória que o trailer da nova adaptação do romance Persuasão de Jane Austen pode reclamar é a de me ter induzido a voltar a pegar na versão original do livro.

Tinha-me deixado vencer pelo Inglês antiquado há uns meses atrás, ali pelo sétimo capítulo, - antes do regresso do espadaúdo capitão Wentworth - mas ganhei um novo apreço pela prosa estrangeira da amiga Jane depois da desilusão que se abateu sobre a minha página da Netflix.

Persuasão não é uma comédia e a Anne Elliot não é uma miúda desbocada que passa a vida a piscar o olho à audiência – a quarta parede é para quebrar, de vez em quando, não para deixar de construir.

Quando soube que o filme estava em produção fiquei entusiasmada; se Orgulho e Preconceito é o conto de fadas, Persuasão é a história que te poderia acontecer (tirando o rico capitão naval). A “queda” foi muito maior precisamente por isso.

Resta-me a esperança de que aquele disparate de trailer tenha sido uma exigência dos produtores para alcançar uma audiência mais alargada e que o filme até não esteja muito mal.

Porque, sim, vou ver o filme na mesma. Sou fã, o que é que se há-de fazer…

20 de Junho, 2022

Ensinar Ponto e Vírgula

Inês Reis

Eu não vou ensinar ninguém, até porque ainda ando a aprender. Queiram, desde já, desculpar o meu abuso das vírgulas e o ocasional ponto e vírgula mal colocado.

Mas vou aqui partilhar os truques que aprendi na esperança que a malta partilhe os seus.

Foi a mesma professora que me explicou a diferença entre “inclusive” e “inclusivamente” que me ensinou a “regra” que eu faço por seguir na minha escrita:

Para além de quando se está a fazer uma enumeração ou uma introdução, as vírgulas são para usar aos pares e as palavras que ficam entre vírgulas devem poder ser retiradas sem que a frase perca o seu sentido.

Um exemplo:

“Olha-me esta aqui, que mal sabe juntar duas frases, a querer ensinar a malta!”

Como podem ver, se o bocado que está entre vírgulas for apagado, a frase fica menos engraçada, certo, mas continua a fazer sentido.

Aprendi depois que uma vírgula ajuda também a separar duas ideias numa frase mais comprida, e que, geralmente, antecede palavras como “e” ou “mas” – algo que já fazia de forma mais ou menos intuitiva e que exemplifico nesta mesma frase.

Já o ponto e vírgula é mais manhoso; apesar de haver um par de situações mais fáceis de perceber. (Sendo que a frase anterior não é uma delas – alguém que me diga, por favor, se bastava uma vírgula.)

Uma utilização clara surge quando há necessidade de separar uma frase comprida onde se estão a enumerar situações com recurso a frases onde já se usam vírgulas. Podem ver, como exemplo, o primeiro parágrafo do meu texto: Sangue, Urina e Kiwis.

A outra é para ajudar a malta a dar a entender que está só na brincadeira:

“Hoje não me apetece nada trabalhar.  ;-)”

Aceita-se correcções, sugestões e tudo o mais que venha por bem.

Para quem estiver interessado, encontrei uma explicação bastante simples, apesar de em Inglês, AQUI.

16 de Junho, 2022

A Geometria da Sobrancelha

Inês Reis

Há dias vi um vídeo de maquilhagem que incluía uma régua, um lápis e um compasso.

E foi nesse preciso momento que tive a certeza de que essa vida não é para mim.

Atenção, que eu gabo a paciência de quem sacrifica horas de sono e uma parte significativa do seu orçamento mensal pela arte do bem parecer – porque é uma forma de arte – mas, admitamos: não é nada prático.

Eu evito usar máscara, não pela dificuldade de colocar, mas pelo trabalho que dá a tirar (e porque fico sempre com o look típico de quem esteve a chorar na casa de banho da discoteca). Não me vão apanhar, certamente, a ver tutoriais sobre como desenhar as sobrancelhas em esquadria.

Até porque só eu sei o que já me custa arrancar a meia dúzia de pelos extraviados que não se deixam esconder pela armação dos óculos.

13 de Junho, 2022

Sangue, Urina e Kiwis

Inês Reis

Durante os meus anos como rapariga da farmácia, apanhei de tudo: um senhor que, acabado de vir da hemodiálise, pintou o chão de vermelho enquanto aguardava na fila pelos remédios do costume; uma miúda que chegou ao balcão, deixou uma poça de urina, e correu porta fora, sem dizer uma palavra; e uma mulher que nos fez abrir a porta dez minutos mais cedo, para medir a tensão, e acabou por deixar o pequeno almoço todo no lavatório da casa de banho.

Mas esta é a história que quer ser contada.

Ela ficou no carro. Primeiro sinal de que algo não estava bem. Se viessem comprar uma pilula do dia seguinte tinham entrado os dois e, para comprar preservativos, ele tinha vindo sozinho.

Não estava mais ninguém na farmácia, mas, ainda assim, relatou-me o seu problema no tom de voz que se usa para espalhar a última coscuvilhice que se ouviu na padaria sobre a vizinha do segundo esquerdo.

“Eu não estou com ela,” disse, apontando com o polegar para trás de si, “mas ela engravidou pra ver se me prendia”.

Depois de perceber que os cinco dias após a relação sexual desprotegida estavam mais que passados, sugeri o hospital mais próximo. “Até às dez semanas, já é permitido em Portugal,” expliquei eu, sabendo que a mudança na lei era ainda suficientemente fresca para ser desconhecida por muitos.

Mas ele sabia ao que vinha; procurava uma solução mais rápida e menos vistosa. Algo que se resolvesse com um punhado de comprimidos soltos, sem recibos ou receitas médicas.

“Não o consigo ajudar, peço desculpa”. E talvez o meu olhar tenha revelado algo mais que as minhas parcas palavras, porque ele acenou a cabeça, resignado, e foi-se embora.

Não conhecia nenhum dos dois – percebo que, para este tipo de coisas, não se escolha a farmácia do costume – mas, de quando em vez, dou por mim a pensar se seguiram o meu conselho, ou se haverá mais uma criança por aí, a balançar entre o ressentimento da mãe e o desinteresse do pai.

09 de Junho, 2022

Vende-se!

Inês Reis

Vergonha na cara

Como nova

Preço negociável

(Aliás, dependendo do interessado, posso, mesmo, enviá-la a custo zero)

É portátil e muito discreta, combina com todas as cores e estilos, e não há, absolutamente, razão nenhuma para não a levar consigo para todo o lado.

Está treinada para entrar em ação em todas as situações do mundo digital, com enfase nas publicações que acontecem após a uma da manhã e/ou imediatamente antes do quinto shot.

E mais! Esta “vergonha na cara” traz consigo uma boa dose de “vergonha alheia,” completamente grátis!

E não, não me estou a desfazer dela porque está com defeito. Antes pelo contrário, está a funcionar tão bem que me tornei um bocadinho honesta e decente demais para a nossa sociedade moderna.

 Aceito propostas sérias por mensagem direta que não se façam acompanhar de nudes não solicitados.

06 de Junho, 2022

Oh, Não Era Preciso!

Inês Reis

A sério, não era mesmo preciso. Eu sei que é de boa mente e que é um sinal do amor que sentes por mim, mas eu passo bem sem ter de me desfazer dos cadáveres que me deixas todas as manhãs na varanda.

Certo, nunca são mais que ratinhos, gafanhotos, ou o ocasional pássaro, mas não deixa de ser uma chatice – principalmente, se já estou atrasada para o trabalho. E os bichos não te fizeram mal nenhum.

E é por esta ordem de razões, que eu te peço, Pipoca, que abandones a tua vida de crime e te tentes contentar com as tampas de garrafas, enfeites de Natal e fitas de embrulho que passam pelos teus brinquedos (já que aqueles que te comprei te passam completamente ao lado…).

Eu, ainda assim, gosto muito de ti e, a bem da verdade, eu nunca te pedi nada, por isso, vê lá se me fazes este favor.

Obrigadinha, sim!

02 de Junho, 2022

Modas

Inês Reis

Pode dizer-se que o meu estilo atira pró casual-cheap.

O que, trocado por miúdos, significa confortável, discreto, e barato. Se uma peça de roupa não atrai qualquer tipo de inseto polinizador e está em saldos, então, é para mim.

E a vida já é demasiado complicada sem que eu, voluntariamente, acrescente dispositivos de tortura (leia-se sapatos de salto alto) aos meus dias.

Mas se vos parece que este pequeno ensaio humorístico é apenas uma tentativa de disfarçar um problema maior… têm toda a razão.

Se aprendi a gostar, genuinamente, deste meu look simples e descontraído, foi apenas depois de anos a lidar com as inseguranças de uma adolescente introvertida e sem orçamento para as últimas modas.

“Nah, eu não tive umas Converse. Eu tive umas Universe, que eram ainda melhores!”

Já perdi a conta às vezes que fiz esta piada, já adulta. Mas garanto-vos que, na altura, de sapatilhas contrafeitas nos pés, não lhe achei assim tanta graça.

Diz quem sabe, que há que tirar as lições necessárias do passado e seguir em frente. Então, aqui estou eu, a tentar pôr a auto-aceitação na moda.