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Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

30 de Agosto, 2021

O Armário

Inês Reis

Durante alguns dias, naquele ano, acordei a pensar no armário dos medicamentos de outra pessoa; provavelmente, uma gaveta da cozinha onde, juntamente com a medicação habitual, ela deixou as estranhas caixas.

O marido era a sua mão direita e também a esquerda e, quando o derrame o atirou para uma cama, ela apareceu-me ao balcão da farmácia a perfeita imagem do desespero. Era cliente habitual e eu sabia muito bem que apenas conseguia assinar o nome depois de muitos anos de prática e que os seus filhos não chegariam de França a tempo de a ajudar. Então, repeti a posologia vezes suficientes para a saber de cor e perceber que não iria fazer a mínima diferença; ela não estava suficientemente bem para memorizar o que quer que fosse.

Aquela foi a primeira vez que tive de desenhar sóis, luas, pratos e talheres em caixas de medicamentos para tentar garantir que os meus utentes recebiam a medicação correta à hora certa. A primeira mas não a última.

A minha preocupação terminou três dias depois, quando ela voltou à farmácia com um saco cheio de medicamentos. Ele não iria precisar mais deles, disse ela. Eu dei-lhe os sentimentos e ela agradeceu-me; talvez por mais do que só pelas condolências.

26 de Agosto, 2021

Viagem Só de Ida

Inês Reis

Os naufrágios de barcos – que mal merecem o nome – com dezenas de refugiados já deixaram de ser notícia de destaque; são agora mencionados, ao de leve, entre o resultado da bola e a última gafe política de um ministro qualquer.

O que não significa que aconteçam menos, apenas que já nos acostumámos a eles. E lições, não aprendemos uma única. Aliás, as tragédias mais recentes apenas trocaram o oceano pelo aeroporto.

Mas, infelizmente, a crise climática não se curva perante as políticas, religiões, ou guerras de ninguém, e temo pelo nosso futuro caso não consigamos parar o aumento da temperatura do planeta e nos vejamos com milhões de refugiados do clima para acolher, alimentar e tratar sem um plano bem definido para o fazer.

Resta-nos exigir as mudanças necessárias aos nossos governos e esperar pelo melhor.

23 de Agosto, 2021

Enemies To Lovers

Inês Reis

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Então, não é que, no final dos anos 90, eu andava a escrever fanfiction sobre a série “Buffy, a Caçadora de Vampiros” sem saber que o fazia.

Certo, era menos x-rated que as que se escrevem hoje, na era da Internet, mas surgiu da mesma necessidade de expandir as histórias das minhas personagens favoritas.

Curiosamente, não escrevi uma única linha sobre a Buffy; não, o que eu precisava era de ver o Xander e a Cordelia juntos.

Sabem aquele casal cujas discussões criam tanta tensão sexual que a dita se podia cortar à faca? É um clássico da ficção porque resulta e, neste caso, não foi exceção. (já se é saudável, será outra conversa)

Mas ter de esperar uma semana inteira por mais um episódio, só para eles continuarem com as suas picardiazinhas, era uma tortura, até que decidi pôr as mãos na massa. Nas minhas histórias eles diziam sempre o que lhes ia no coração – porque eu sabia, claro – e acabavam, inevitavelmente, juntos em todas elas.

Perante todas as incertezas da vida, ao menos, naquele pequeno universo eu era dona e senhora dos destinos daquela malta.

Talvez, por isso, nunca tenha deixado de tentar ser escrevedora de coisas.

Imagem: Ann Harding and Nils Asther in The Right to Romance (1933). By RKO Radio Pictures - https://archive.org/stream/pictureplay3941stre#page/n49/mode/2up, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=67311072

19 de Agosto, 2021

Os Problemas da Pornografia

Inês Reis

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Até me podia estar a referir aos guiões fraquinhos ou à falta de qualidade dos atores, mas a questão vai muito mais além de um diálogo forçado entre uma madrasta boazona e o seu enteado atrevido que se divertem na piscina, enquanto o velho ressona no quarto do casal.

Muito mais além, aliás.

Logo à cabeça, temos o problema da falta de regulamentação. Um assunto muito pouco sexy, eu sei, mas necessário.

Desde a exploração de menores às condições de trabalho humilhantes, ou mesmo perigosas, que milhares destes atores têm de suportar – porque se a procura é enorme, a oferta é ainda maior, – há muito pouco glamour nos bastidores na indústria do sexo.

E com a quantidade de dinheiro que este negócio gera, seria de esperar que os governos de todo o mundo quisessem arrecadar a sua parte, mas parece que ainda é tabu falar abertamente de s-e-x-o.

É claro que a pornografia tem as suas especificidadezinhas; em mais nenhuma área profissional lhe vai ser pedido um teste mensal às DST’s, mas eu diria que esse é um pequeno preço a pagar por um bem maior.

Se o sexo é consentido, e entre adultos, porque não partilhá-lo com milhões de estranhos (maiores de idade e alguns adolescentes precoces) por essa Internet fora?

Mas, infelizmente, outro problema premente na indústria do sexo é o tráfico de seres humanos, o que significa - podemos argumentar - que legitimá-la serve apenas para permitir que estas atrocidades continuem a acontecer.

Se trago soluções? Não. Mas venho, pelo menos, tentar deixar um ou dois leitores a pensar no assunto com uma maior abertura. (Da mente! Não sejam maldosos)

Imagem: By מתניה - Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10884029

16 de Agosto, 2021

Era Uma Vez Em Cabul

Inês Reis

EXT- CABUL – DIA

As lagartas vagarosas dos tanques enchem as ruas de pó e os ouvidos de terror. De olhos arregalados e dentes cerrados, os rostos cruzam-se nos seus trajetos apressados, sem se ver.

Uma jovem estudante é quase derrubada pela arma semi-automática ao ombro de um soldado taliban e vê os seus livros caírem aos pés dos transeuntes, que os pisam e chutam para fora do seu alcance.

Empurrada pela massa de gente, ela vê-se forçada a seguir o seu caminho de mãos vazias.

FADE TO BLACK

12 de Agosto, 2021

Os Novos Anos 20

Inês Reis

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Não será, de facto, uma comparação justa; nos anos 20 do século passado as restrições para o acesso à praia eram, como direi, um bocadinho mais misóginas do que as que temos hoje.

Sim, é chato ter de levar a fita métrica p’ro areal e não poder desfrutar plenamente dum Solero Exótico só porque estamos a favor do vento, mas talvez não seja assim tão difícil seguir meia dúzia de regras se isso significar um belo dia de praia.

Já pela década de 1920, as moças que não se queriam enfiar em bidões, para proteger a sua modéstia enquanto se banhavam no mar, corriam o risco real de ser multadas ou mesmo presas por atentado ao pudor.

A causa? Um fato de banho demasiado revelador (dos joelhos).

Portanto, se a vontade de ir à água continuar a ser grande demais para contrariar, segue uma ligação para as “Regras para ir à praia” do SNS24, AQUI

Imagem: By National Photo Company Collection - Library of CongressCatalog: https://www.loc.gov/pictures/item/2016832965Original url: https://hdl.loc.gov/loc.pnp/npcc.06624, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=67041255

09 de Agosto, 2021

5 Receitas Essenciais Para Estudantes do Ensino Superior

Inês Reis

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Se vais ingressar no ensino superior e sabes cozinhar, tipo, verdadeiras refeições, então, este texto não é para ti.

Já se fores como eu, que sobrevivi os quatro anos à base de comida da cantina e tupperwares com sopa da mãe, vais querer espreitar o meu “Manual de Iniciação à Cozinha Para Estudantes – A Arte de Não Passar Fome”.

Receita #1

Esparguete com Atum

– Atenção que o esparguete incha com a cozedura. Um pacote dá, garantidamente, para mais do que uma refeição.

- O atum de marca branca serve num aperto, mas há que tentar apanhar o de marca em promoção e comprar meia dúzia de latas.

Receita #2

Arroz com Atum

- Para o atum ver receita anterior.

- O arroz vai correr mal das primeiras seis ou sete vezes. Aceita-o. Mas quando conseguires que não fique nem cru nem em papa vai ser um dia bom.

Receita #3

Esparguete com Ovo

- Esta receita é, na verdade, um 3 em 1, pois o ovo pode ser estrelado, mexido, ou em omelete (pontos de bónus se levar o resto do atum que guardaste no frigorífico dentro da lata entreaberta).

- Na impossibilidade de utilizar a frigideira do colega de casa, podes sempre cozer o ovo. Mas fica o aviso: não é a mesma coisa.

Receita #4

Arroz com Ovo

- Já és perito em ambos, agora é aproveitar.

Receita #5

Esparguete ou Arroz com Cenas Mais Caras

- As cenas mais caras podem ser salsichas ou douradinhos, dependendo das preferências pessoais (e da altura do ano - entre Maio e Junho é para esquecer).

- Dica: se receberes "visitas," esta é a receita certa para as impressionar.

E, parabéns, estás pronto para seguir para o módulo seguinte: Receitas com Mais de Três Ingredientes.

Imagem: By Paolo Piscolla - originally posted to Flickr as Spaghetti, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10287821

05 de Agosto, 2021

Sobre a Demência

Inês Reis

Toda tu tremias. A chuva caía impiedosa e, na rua, poucos se aventuravam a fazer-lhe frente. Que tu estivesses parada no meio de uma praça vazia a permitir-lhe cair sem protestos, parecia coisa de loucos.

Quando cheguei à tua beira evitei tocar-te; nunca sei se vou ser a tua filha ou uma estranha. Mas daquela vez fui uma cara sobejamente conhecida para merecer um sorriso, antes de me dizeres serenamente: “Está a chover”.

Naquele momento, não tive como evitar as gargalhadas que me saíram da boca aos soluços. Encontrar-te bem quando, meros segundos antes, te pensava perdida, tomou o meu corpo de assalto e eu só tive tempo de me render.

Depois de um segundo de confusão juntaste-te a mim, e rimos como não fazíamos há anos. Como se estivéssemos a rir a mesma piada. Não estávamos. Mas aos olhos de qualquer um, eu parecia tão louca quanto tu, a rir do mesmo nada, debaixo da mesma chuva. Era-mos iguais, família; como já não conseguíamos ser desde que te foste embora.

As tuas visitas são cada vez menos e mais espaçadas, e eu já dou por mim a desejar que não apareças sequer. A filha da mãe desta doença tornou-me num ser egoísta e é-me mais fácil sentir a tua falta do que perder-te uma e outra vez.

Mais fácil, mas, ainda assim, a maior provação da minha vida: ser órfã de mãe viva.

Mas os dias passam e os fardos tornam-se mais leves e, de vez em quando, ainda esboço um sorriso – daqueles que não chegam aos olhos – ao recordar-me do teu.

Agora que já não temos mais memórias para criar, restam-me as longas conversas que temos na tua ausência.

02 de Agosto, 2021

2 Metros Covid em Apneia

Inês Reis

Enquanto a malta celebra a possibilidade do fim das máscaras na rua a partir de Setembro, eu ando a treinar para os 2 metros Covid em apneia.

Parece-me, aliás, que vou continuar a usar máscara em sítios públicos - mesmo já com duas doses de vacina no bucho, por respeito a todos os que não a podem levar - mas preciso de me ir habituando à ideia de passar a conviver com pessoas de cara nua.

No entanto, a tentação de suster a respiração quando a menos de dois metros de outros seres vivos aeróbios ainda bate forte.

Nova modalidade p’rós próximos Olímpicos, talvez?