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Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

25 de Fevereiro, 2021

O Tom dos Texts

Inês Reis

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A malta que sofre das ansiedades concordará comigo que se há coisa que nos deixa a matutar é o tom com que uma mensagem de texto que escrevemos chega ao destinatário.

Porque as palavras podem sair no nosso telemóvel com um tom amigável e descontraído e chegar ao aparelho do nosso familiar ou melhor amigo com uma ironiazinha – que, provavelmente, apanhou pelo caminho – já a passar de prazo.

Nunca me hei de esquecer do dia em que fui confrontada com o tom das minhas mensagens de texto. Foi-me perguntado se eu estava chateada com alguma coisa, ao que eu respondi: “Não! Porquê?” Enquanto pensava obsessivamente: “Oh, não! De que coisa, certamente, horrível, mas que eu não me lembro de ter feito, se vai ela queixar?”

Ao que parece, um simples “Xau" torna seca qualquer mensagem, mas eu tinha uma excelente desculpa; naqueles tempos, as mensagens de texto pagavam-se e eu, uma simples estudante do ensino superior, sem dinheiro para esbanjar em carregamentos de telemóvel – porque era preciso guardar o saldo para ligar aos pais todas as noites – tinha de saber economizar os caracteres.

Ora, apesar de práticas, as minhas mensagens eram, de facto, bastante secas em tom, pelo que a partir desse momento decidi dizer “que se lixe” e passei a terminar todas elas, mas absolutamente todas, com um doce “Xauzito”. Muito mais fofo, não concordam?

Curiosamente, este truque não resolveu todos os meus problemas de ansiedade e, por isso, continuo a trabalhar diariamente para não ter uma apoplexia de cada vez que recebo uma mensagem no telemóvel.

Valem-me os emojis. :-)

(este texto foi inspirado por este post d’ A Introvertida)

Imagem: By Cangjie6, Jacek Fink-Finowicki - Cangjie6, Jacek Fink-Finowicki, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=80901890

22 de Fevereiro, 2021

Ler ou Não Ler a Bula

Inês Reis

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Eis, efetivamente, a questão.

Num passado não muito distante, eu posso, ou não, ter dito que ler o folheto informativo de um medicamento torna qualquer pessoa insuspeita numa hipocondríaca profissional.

E, sim, até um simples comprimido de paracetamol tem uma lista de possíveis efeitos secundários de envergonhar uma qualquer droga sintética, mas, a verdade, é que toda a informação descrita naqueles papelinhos, em letras pequeninas (diz ela com um piscar de olho maroto), é extremamente importante e deve ser consultada sempre que necessário.

E “em que situações consideras ser necessário consultar a bula,” perguntam vocês, em uníssono.

Bem, logo à cabeça, estão todos os doentes crónicos que tomam, diariamente, medicação para controlar as suas patologias (hipertensão arterial, diabetes, hipercolesterolemia – ou Castrol alto - etc.) e que devem, portanto, consultar as bulas sempre que precisem de tomar algum medicamento para uma situação aguda (uma dor de cabeça, uma alergia, uma constipação, etc.) e não tenham possibilidade de ter aconselhamento médico.

“E porquê?” Questionam vocês a duas vozes e acompanhados de uma viola baixo.

Ora, porque há interações entre medicamentos que podem se mais graves que a situação para a qual os ditos foram tomados, em primeiro lugar.

E até porque, em alguns casos, esses medicamentos não sujeitos a receita médica são desaconselhados a esses pacientes.

Depois, temos todos os casos em que surgem sinais e/ou sintomas estranhos – as ditas reações adversas - após a toma de um medicamento que, dependendo da sua gravidade, podem ser considerados normais ou precisar de atenção médica especializada.

Pequena dica: sempre que a vossa pele se transforma na de um turista Inglês de férias no Algarve depois da primeira toma é parar de tomar e ir ao medico ou ligar para o SNS 24 (808 24 24 24).

Em conclusão, em caso de dúvida, é consultar a bula.

Mas, de preferência, “o seu medico ou farmacêutico”.

Imagem:

By Martin Droeshouthttp://firstfolioold.bodleian.ox.ac.uk/BookReader/BookReaderImages.php?zip=&file=cropped/jp2s/axc0005_0.jp2, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=20219763

18 de Fevereiro, 2021

Querido Diário,

Inês Reis

Nunca pensei que fosse sentir tanta falta de um toque humano.

Depois de meses sem sair do lugar, dava tudo por voltar ao trabalho; eu, que ganho a vida a fazer exatamente a mesma tarefa, desde o momento que pego ao serviço até à minha hora de saída.

Num dia bom, passo o expediente todo a desejar toda uma panóplia de coisas horríveis aos clientes que, não tendo sequer uma palavra de agradecimento para me dirigir, ainda fazem questão de danificar o material.

Mas, apesar de tudo isto, dou por mim a sonhar com umas mãozinhas de criança, a colar de tão sujas, agarradas a mim, com a força de quem ainda não tem equilíbrio suficiente para não mandar um tralho das escadas abaixo.

E, com a exceção da queda - que envolve sempre sangue e gritaria – confesso-te, caro amigo, que este seria, para mim, um dia absolutamente perfeito.

Que ele chegue depressa.

Este sempre teu, Corrimão de Shopping

15 de Fevereiro, 2021

O Paradoxo do Atendimento Prioritário

Inês Reis

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Quem tem prioridade de atendimento tem o direito de a pedir e o dever de esperar que lha deem.

O que, basicamente, significa que muito pouca gente se sente à vontade para, de facto, “furar a fila”.

E, sim, já apanhei um ou outro aproveitador que me fez revirar os olhos e bufar agressivamente na direção oposta – estou a pensar em ti, jovem de saltos que alegou estar grávida para me passar à frente na fila do supermercado – mas, a verdade, é que a malta que, efetivamente, tem razões mais do que suficientes para ser atendida primeiro acaba sempre por preferir esperar pela sua vez.

Recordo-me bem da jovem com um gesso até à coxa que se aguentou na fila da farmácia, mesmo depois do meu “sabe que tem prioridade” ter sido seguido de uns “pois, se quiser...” muito fraquinhos de dois ou três utentes.

É certo que, em muitos casos, não conseguimos avaliar a necessidade de prioridade simplesmente pelo aspeto físico das pessoas, mas, vá lá gente, tentemos acreditar que se alguém a pede deve ser porque precisa (a ponto de arriscar tornar-se persona non grata na sua área de residência).

E, no entretanto, experimentem deixar passar à vossa frente aquela pessoa com um artigo na mão que está a olhar para o vosso carinho cheio ou para as vossas sete receitas médicas com ar de cãozinho abandonado.

Não por obrigação mas porque é a coisa simpática a fazer (e porque já todos fomos a pessoa com o frasco de champô na mão à espera de uma alma caridosa).

Imagem: By Department for Transport (United Kingdom)Department for Regional Development (Northern Ireland)Scottish ExecutiveWelsh Assembly Government - EPS supplied to uploader from Department of Transport; https://www.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/223943/traffic-signs-manual-chapter-03.pdf, OGL 3, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=46878585

11 de Fevereiro, 2021

Problemas de Gajas

Inês Reis

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Enumera todas as marcas de medicamentos para a disfunção erétil que conheces. Vai!

Eu diria que conheço demasiadas (dos meus tempos de técnica de farmácia, não sejam maldizentos) mas, ainda assim, aposto que todos se lembram de umas duas ou três; e, logo à cabeça, estará a marca que reivindicou para si a propriedade da cor azul.

Mas este exercício de memória tem um propósito, e não é acusar ninguém de problemas do foro sexual.

Antes, o que pretendo é comparar o investimento feito na área do “levantar do mastro” com aquele direcionado para os problemas da saúde feminina.

Senão vejamos, tudo, mas absolutamente tudo, desde problemas hormonais, alterações do ciclo menstrual, dismenorreia ou endometriose, é “tratado” com a pílula contraceptiva - com resultados pouco claros, convenhamos – mas os amigos do sexo masculino têm ao seu dispor uma infinidade de cremes, comprimidos e até soluções injetáveis (haja coragem!) exatamente para o mesmo problema.

E, atenção, eu compreendo a necessidade de criar oferta para um mercado onde a procura é (muito) maior, mas, então, onde é que fica a responsabilidade social e os, ditos, valores destes gigantes da indústria farmacêutica?

Parece-me que deve estar na hora de eu ir tomar a pílula.

Imagem: Venus von Willendorf; Kopie. By photographer User:Thirunavukkarasye-Raveendran - Foto einer Kopie, CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=95094602

08 de Fevereiro, 2021

Fora de Control

Inês Reis

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Não sei que homens serviram de modelo para as marcas de preservativos comercializadas no nosso país, mas, seguramente, não eram Portugueses. Caso contrário, todas elas disponibilizariam ao consumidor Tuga uma tamanho “Triple X Super Extra Mais”.

Sim, meus amigos, o homem nacional sofre em silêncio com a falta de opções no mercado do sexo – e não me estou só a referir a arneses de cabedal pintado à mão. O flagelo em questão é a escassez de tamanhos de preservativos suficientemente grandes para servir os pénis da nação.

Mas, ironias à parte, e, por mais engraçado que fosse ver a malta a fazer verdadeiros malabarismos só para pedir uma marca de “você sabe… mas um bocadinho mais largos,” a verdade é que o embaraço faz com que a maioria dos homens não perca muito tempo a escolher a marca e o tamanho de preservativo mais adequados para si.

(já para não falar dos que se limitam a ir àquelas máquinas dispensadoras das farmácias - a altas horas da madrugada, para não deixar testemunhas - e pagam uma exorbitância por uma caixa de três preservativos que passou sabe-se lá quantos dias à esturra do sol)

E acreditem quando eu digo que o problema nos afeta a todos; se a maioria dos homens prefere não usar preservativo durante o sexo, alguns há que o tiram durante o ato sem o consentimento do parceiro ou parceira. O que significa que é do interesse geral que as luvas assentem o melhor possível nos apêndices sexuais masculinos; dos polegares pungentes aos mindinhos atrevidos, se é que me faço entender.

E, lembrem-se, pedir uma caixa de preservativos ao balcão da farmácia deve ser motivo de orgulho. Não só significa que têm alguém disposto a ir para a cama com vocês – cá mais cinco! - como mostra que são suficientemente inteligentes para se manterem saudáveis e, para alguns ainda, longe de uma possível batalha legal pela custódia de um puto que não pediu para nascer.

Imagem: By j4p4n - Openclipart, CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=88651681

04 de Fevereiro, 2021

Maria, 45, Solteira

Inês Reis

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“Nasci em mil nove e setenta e cinco, tendo visitado as urgências pela primeira vez após uma queda de um aquecedor a óleo, ao qual subi para alcançar uma boneca, que nem era a minha preferida. Aos treze…”

Seria mais ou menos aqui que a pessoa atrás do balcão da farmácia lhe interrompia o discurso para perguntar se “vem levantar algum medicamento” (o “para a cabeça” fica por dizer).

Não, caro leitor, não é necessário contar a sua história de vida só para comprar umas pastilhas para a garganta, mas é, contudo, importante divulgar certas informações à malta da bata branca para que não quineis da cura (mas da doença, tal como o senhor designou).

Desde recomendar um xarope para a tosse sem açúcar a um utente diabético até desaconselhar um anti-inflamatório oral a um hipertenso, os doutores da farmácia gostam de saber de todas as patologias que vos aflijam, tanto o corpo como a mente, para melhor os servir (e evitar a todo o custo não matar um, é claro).

E se é comum ouvir um utente ao balcão advertir o farmacêutico para a sua alergia à penicilina, à maioria das pessoas nem lhe ocorre mencionar que está a tomar um medicamento “p'rós nervos” quando pede alguma coisa boa para uma gripe ou constipação, “mas p’ra acabar com ela, veja lá isso”.

Mas, a verdade, é que há certas interações, que podem ser potencialmente fatais, entre os medicamentos vulgarmente conhecidos como de venda livre e a medicação que tomamos diariamente.

Por isso, não, não se acanhe de contar (quase) tudo aos profissionais de saúde a quem pede um conselho. Qualquer um dos meus (ex) colegas vai ficar agradecido por saber de uma qualquer doença crónica ou problema de saúde que tenha antes de lhe recomendar o que quer que seja.

Sim, mesmo que seja só uma pomada para as hemorroidas.

Imagem: By G.dallorto - Own work, Attribution, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=29016738 Byzantine liturgical parchement scroll, 13th century. Exhibited in the Byzantine and Christian Museum in Athens

03 de Fevereiro, 2021

O Momento // Os Desafios da Abelha

Inês Reis

A Ana de Deus desafiou-me, aqui, a "desenhar com palavras" o rosto de uma mulher (imagem por Laura Agusti). Aqui está a minha "pintura".

O incisivo meio torto só aparece nos dias bons; quando as gargalhadas fogem pelo nariz à socapa e lhe arregalam as ventas por uns segundos.

Mas o constrangimento rapidamente lhe leva o sorriso dos lábios e a mão à boca. A mesma mão que constantemente esconde o pelo que cresce no sinal do queixo e que só ela vê. 

As bochechas, habitualmente rosadas, pintam-se de vermelho, num padrão que faz lembrar uma aguarela a nascer numa folha de papel virgem, depois de delicadamente tocada pelas cerdas de um pincel molhado.

Os seus olhos crescem, instantes antes de encontrarem o chão, para não mais o abandonar.

E o momento esvai-se, deixando apenas uma memória ténue de um rosto perfeito nas suas imperfeições.

01 de Fevereiro, 2021

Obrigada Por Tudo

Inês Reis

EXT. PARQUE HOSPITALAR – NOITE

O azul dos pirilampos corta a escuridão da noite chuvosa em loops desfasados e ilumina o desfile de ambulâncias paradas à porta do hospital.

Os paramédicos de uma das carrinhas estão há longos minutos a tentar ressuscitar um homem demasiado novo para esta história.

Há vozes alteradas e muita comoção no interior da viatura. E enquanto todos observam a cena de punhos cerrados, um BOMBEIRO olha fixamente para a entrada das urgências.

                                                                           BOMBEIRO

                                                                        (num suspiro)

                                                            Vá lá…

E é quando se faz silêncio na carrinha do INEM.

O BOMBEIRO finalmente desvia o olhar e regressa à sua ambulância, derrotado.

Uma maca sai disparada da porta das urgências, empurrada por mãos exaustas, apenas para parar uns metros à frente.

Já não há nada a fazer.

                                                                                                                                                      FADE TO BLACK

 

No texto de hoje não há humor, apenas um agradecimento sentido a todos os profissionais de saúde que, apesar de assistirem a cenas como esta, diariamente, ficam sempre até ao fim do filme.

Muito obrigada a todos.