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Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

Em Letras Pequeninas

Podem tirar a rapariga da farmácia, mas não podem tirar a farmácia da rapariga. Salvo seja…

28 de Janeiro, 2021

A Bela Acordada e as Sete Benzos

Inês Reis

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Era uma vez uma princesa que não conseguia pregar olho; não havia chá ou aplicação móvel que lhe valessem e, em todo o reino, não se encontrava uma única bruxa que comercializasse umas maçanzitas enfeitiçadas.

Completamente desesperada, a princesa decidiu desviar um calmante dos que a rainha toma quando o rei passa muito tempo no castelo, e não é que lá conseguiu dormir toda a noite.

Um feitiço de pouca dura; pois, agora, os comprimidos parecem fazer tanto efeito como um copo de água, mas, ainda assim, a princesa não passa sem o seu chuto diário.

O mago real lá vai prescrevendo uma dosagem mais alta sempre que pode, mas sabe perfeitamente que está apenas a alimentar um vício e que só um mago da mente a pode ajudar.

E enquanto a princesa espera por uma consulta de especialidade no Serviço Real de Saúde, lá vai tentando recriar aquela doce primeira noite de sono que os calmantes da mãe lhe proporcionaram e que os seus nunca conseguiram reproduzir.

Felizmente, não há príncipes a rondar a costa, já que a última coisa que ela precisa é de um beijo de um estranho com propriedades análogas à da cafeína.

Mas, se tudo correr bem, com a terapia certa e muita força de vontade, a princesa (tal como a maioria das pessoas) lá conseguirá viver moderadamente feliz para sempre.

Imagem: "The Sleeping Beauty" by Jenny Nyström - https://owl.museum-digital.de/singleimage.php?imagenr=8420, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=67593127

25 de Janeiro, 2021

Covipocondria

Inês Reis

A_hypochondriac_with_something_in_his_eye._Coloure

Co.vi.po.con.dri.a

Substantivo inventado

A sensação parva de estar com Covid-19 de cada vez que sentimos o mais leve dos desconfortos. O que inclui, mas não está limitado a, uma dorzita de cabeça, uma comichão na garganta ou, deus nos livre, um espirro.

 

E esta “perturbação” tem a característica particular de não discriminar ninguém.

Se, em tempos idos, era fácil troçar de um hipocondríaco que se auto-diagnosticava com um tumor no cérebro à primeira enxaqueca, agora, que vivemos todos debaixo o mesmo telhado de cristal, há que ter tento na língua.

Mas, a verdade, é que a pandemia fez disparar os níveis de ansiedade, até do mais calmo dos monges Budistas, e se a saúde mental dos Portugueses já era um problema antes de um vírus mortal se espalhar pelo planeta - à la filme de Hollywood - não podemos esperar que, por milagre, essa mesma população consiga lidar com um situação extrema, como a que se vive atualmente, sem consequências.

Não trago soluções, nem “10 dicas para combater a depressão,” até porque nenhuma publicação online substituí uma terapia personalizada, mas nunca é demais lembrar que a saúde mental não deve ser descurada; e, não, uma ida ao psicólogo ou ao psiquiatra não faz de nós “maluquinhos”.

Agora vão lá “googlar” os “sinais e sintomas mais raros da Covid-19” pela milionésima vez esta semana, que eu vou fazer o mesmo.

Imagem: "A hypochondriac with something in his eye" By https://wellcomeimages.org/indexplus/obf_images/6e/17/e0a1cbc4d73c67589403fbb6c714.jpgGallery: https://wellcomeimages.org/indexplus/image/V0015885.htmlWellcome Collection gallery (2018-03-22): https://wellcomecollection.org/works/b83zdp7z CC-BY-4.0, CC BY 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=36497613

21 de Janeiro, 2021

Livrem-se de Ficar Doentes!

Inês Reis

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Será mais fácil dizer que fazer; até porque acidentes, ninguém os planeia. (Imaginem só: “É pá, ó destino, esse descolamento de retina não pode ficar antes p’ra depois de almoço?”) Mas a verdade é que, nestes dias de pandemia, o conselho que mais ouvimos é o de evitar uma visita às urgências, a todo o custo.

E se não podemos, de facto, tratar de uma perna partida em casa, com duas canas secas e um pano da loiça, há, contudo, pequenas providências que podemos tomar para não sermos apanhados com as proverbiais calças na mão.

Ter uma caixa de primeiros socorros – que pode muito bem ser uma lata daquelas bolachas de manteiga que a avó usa como caixa de costura – com pensos rápidos, soro fisiológico, solução desinfetante, compressas de gaze, adesivo, ligaduras, pomada para queimaduras e outra para hematomas, e uma bolsa quente/frio – de preferência tudo dentro da validade – para aquelas situações menos graves.

Dar a volta ao armário dos medicamentos e garantir que há, pelo menos, uma alternativa de analgésicos - tendo em conta as diferentes idades lá de casa - com propriedades antipiréticas (que é “doutorez” para fazer baixar a febre), um anti-alérgico e um anti-diarreico, (porque em casa a malta sempre abusa nas porcarias) assim como verificar se há quantidade suficiente de medicação crónica (tensão alta, diabetes, colesterol, etc.) para o mês seguinte.

E uma boa dose de bom senso. A regra será sempre evitar comportamentos de risco – que, nestes dias, vão desde aparar os arbustos lá de casa com uma moto-serra e de olhos vendados a um jantar entre amigos - até porque cautela e caldos de galinha nunca mataram ninguém.

(A autora do post gostaria de advertir para a necessidade de fazer uma alimentação variada que inclua mais do que caldos de galinha, cujo consumo excessivo pode, efetivamente, matar alguém.)

Imagem: By Crown Film Unit - https://player.bfi.org.uk/free/film/watch-life-in-her-hands-1951-online, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=96235763

18 de Janeiro, 2021

O Valor dos Meds (um trocadilho fraquinho)

Inês Reis

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São sete e meia da tarde e a dor de cabeça que vos acompanhou durante todo o dia parece determinada a rachar o vosso crânio ao meio.

Chegam a casa e, mesmo antes da rotina do Covid – descalçar sapatos, pendurar o casaco numa cadeira que não sai do hall de entrada desde março, tirar a máscara da rua, lavar as mãos durante exatamente dois minutos, colocar a máscara de casa e, finalmente, acenar, de longe, aos vossos entes queridos ao estilo da rainha de Inglaterra – dirigem-se ao armário dos medicamentos e agarram na caixa do paracetamol apenas para constatar que a mesma está completamente vazia.

Para além do folheto informativo que ninguém lê – até porque qualquer um se transforma num hipocondríaco profissional depois de passar os olhos por esses papelinhos do diabo – nem sequer encontram os blisters vazios no seu interior. E é nesse preciso momento que se passam da marmita.

Enquanto gritam profanidades dirigidas à pessoa anónima que teve a audácia de tomar o último comprimido sem ir comprar mais – que pode muito bem ter sido vosmecê – vão atirando para um saco todos os medicamentos daquele armário que passaram de validade em 2014 – mas não os que expiraram em 2020 que esses estão praticamente novos – todas as bisnagas secas e todas as caixas vazias que se foram amontoando desde que se mudaram para aquela casa.

Em seguida, viram-se para a vossa plateia – porque, sim, toda a família está à porta da cozinha a assistir ao vosso fanico em completo choque – e anunciam, alto e a bom som, que tudo aquilo deve ser levado para a farmácia e depositado no contentor Valormed para ser, posteriormente, destruído. “Não é pró lixo comum onde arriscam contaminar solos e lençóis de água, seus animais!” (nesta história, os caros leitores são todos versados em tratamento de resíduos)

É aí que se apercebem da cena que acabaram de protagonizar e, calmamente, agarram no casaco da rua, calçam os sapatos, e informam que vão à farmácia comprar paracetamol e deixar o saco para a Valormed.

“E para quem quiser, há restos d’ontem no frigorífico.”

Imagem: By George Cruikshank [artist]; George Humphrey [publisher] - http://collections.rmg.co.uk/collections/objects/128014, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=62103748

14 de Janeiro, 2021

RIP em Paz

Inês Reis

Escova 2.jpg

Durou mais do que o esperado (seis meses, para quem tem uma esperança média de vida de três, não é mau) e teve uma vida mais carregada de ação que um filme do Bruce Willis dos anos 90.

A escova de dentes do meu pai foi uma heroína; aguentou três escovagens por dia com uma força de p’ra cima de muitos Newton's - se a Físico-Química do meu 10º ano não me falha – e ainda terminou os seus dias com um risco ao meio todo cheio de estilo.

Tenho dúvidas que os dentes dele tenham ficado mais bem lavados e aposto que as gengivas têm várias queixas-crime prontinhas a dar entrada no Tribunal Oral de Lisboa e Vale do Tejo, mas, infelizmente, sei que a próxima vítima vai ter exatamente o mesmo destino.

No entretanto, se, com este post, eu conseguir que, ao menos, alguns “criminosos” deixem de abusar das suas escovas de dentes manuais, já me dou por satisfeita.

É que escovar os dentes não é um exercício de força, mas de jeito. São dois minutos a repartir irmãmente pelos diferentes quadrantes e, durante os quais, devemos tentar escovar todas as superfícies expostas dos dentes. E é isto.

Agora, pr’a quem escovar os dentes soar sempre a uma punição por um crime que não cometeu, talvez valha a pena investir numa escova elétrica.

Imagem: Inês Reis

11 de Janeiro, 2021

E tu, como limpas o teu…?

Inês Reis

A seco, como um tapete de pelo que não cabe na máquina de lavar e limpas com toalhas de cozinha depois duma festa?

Com um toalhete húmido, como quando a minha avó cuspia para a mão p’ra limpar as orelhas do meu pai quando era puto?

Ou será que és um desses unicórnios que, de facto, usa o bidé que tem lá em casa?

É verdade, aquela peça estranha que se encontra ao lado da sanita não é um lavatório para putos, mas, sim, um lavabo para pitos (e áreas circundantes). E é ali, recomendam os especialistas, que se deve proceder à higiene pós-defecação.

Se é pratico? Não. Principalmente, quando acontece durante o dia e há toda uma rotina de “tira sapatos, puxa as pernas das calças – sem descalçar as meias, que o chão ‘tá frio – tira a cuequinha, senta no bidé, levanta, outra vez, porque falta uma toalha, volta a sentar, lava, lava, lava, esfrega, esfrega, esfrega, seca e volta a vestir e a calçar” que nos faz pensar que, se calhar, até vale a pena desistir daquele par de cuecas.

Mas se o papel higiénico faz muito pouco para limpar os resíduos que se escondem entre a “folhagem;” os toalhetes húmidos, que são publicitados como a melhor invenção desde os sprays neutralizadores de cheiros, apenas conseguem irritar a zona, já de si propensa a problemas, com uns quantos químicos com aroma a floresta tropical.

E é por esta ordem de razões que eu - assim que tiver força de espírito suficiente para seguir o meu próprio conselho – irei, também, ser um unicórnio daqueles que sabem limpar o próprio cu.

09 de Janeiro, 2021

Só Garganta

Inês Reis

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“Porque é que o raio do farmacêutico não me vende um antibiótico que eu já tomei antes?”

Primeiro, porque o raio do farmacêutico não pode, e, segundo, porque a saúde não é como um jogo de futebol onde só interessa o resultado.

Das muitas maleitas que levam a malta ao balcão de uma farmácia, são as “inginas” que mais inspiram a necessidade de “uma coisa mais forte”. Mas, apesar de, grande parte das vezes, este mal se resolver bem com 3 a 5 dias de anti-inflamatório e umas pastilhas de mel e limão (porque quem é que pode com aquelas de mentol?), a conversa do “eu já me conheço, isto só vai lá com um antibiótico” acaba sempre por vir à baila. E é assim que, 3 a 5 dias depois, o antibiótico “resolve” a situação e nós ficamos com a certeza que fizemos a escolha certa.

Sim, porque, vira e mexe, somos nós que exigimos ao médico a prescrição; e se o primeiro se fizer de rogado, e não conseguirmos vencer o segundo pelo cansaço, há que coagir o terceiro pela ameaça.

E esqueçam lá isso do antibiótico ser para tomar até ao fim. “Eu já tava fina depois de 4 dias e, assim, guardo os outros comprimidos prá próxima vez,” diz a mesma chica-esperta. “Não. Provavelmente, apenas conseguiste uma recaída dali a umas semanas e a necessidade de tomar outro antibiótico,” respondo eu, do alto do meu canudo. “E parabéns! Estás um Clavamox mais perto de uma infeção por super-bactéria!”

A não ser, é claro, que escolhas acreditar na malta da bata branca.

(a minha foi reformada antecipadamente, mas acreditem que ainda é suficientemente esbranquiçada para eu andar a pregar).

Imagem: Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1443604

06 de Janeiro, 2021

A tarada

Inês Reis

Todos os meses é a mesma coisa. Uns dias depois do período, quando elas estão mais sensíveis e, consequentemente, mais vulneráveis, eu chego, como quem não quer a coisa, e apalpo-as. Assim, sem um “olá, como é que vão,” sem jantar e um filme para quebrar o gelo; nada.

Um simples ato físico, sem apego emocional, mas que tem a sua arte.

Sim, porque eu não me limito a apertar as minhas próprias mamas como um adolescente desesperado a dois segundos de se vir. Não, eu massajo-as delicadamente com os dedos indicador e mediano em círculos concêntricos e sempre traçando caminho em direção ao cálice sagrado: o mamilo; esse bullseye do corpo feminino que tantos poemas amadores inspira.

Tudo isto, é claro, com o bracinho oposto colocado por detrás da cabeça para não perder pitada da ação e ainda satisfazer a minha pancada por axilas – sim, eu vou lá c’os dedos, também.

Mas se toda esta rotina acontece no resguardo do meu quarto, já o espetáculo final tem outra produção. Para terminar as festividades, eu coloco-me em frente ao espelho da casa-de-banho, nuinha da silva, e, simplesmente, observo – enquanto levanto e baixo os braços, qual cisne do lavabo encantado – a curvatura das mamas que o meu pai me deu (ainda estou para perdoar essa à minha mãe).

Agora só espero é que haja por aí mais taradas como eu. Quem se assume?

02 de Janeiro, 2021

Preliminares

Inês Reis

Eu lavo as mãos antes de usar a casa de banho. Pronto, já disse.

Também lavo depois, mas isso já não é controverso dizer, certo? No ano de nosso senhor de 2021?

Pensem lá: estão no trabalho (e não é preciso que sejam serventes de pedreiro, neste “supônhamos”) quando sentem um aperto nas entranhas de baixo (não confundir com a vontade de fazer número dois que, se deus quiser, não dá durante o expediente); o mais certo é que tenham mexido em papéis vindos das secretárias de malta que, se calhar, tem o hábito de “limpar o salão” com os dedos ou que tenham agarrado uma ou dez vezes no telemóvel “pa ver as horas;” telemóvel este que, só nos últimos dias, pousou em múltiplas superfícies - algumas delas das que agora são “desinfetadas várias vezes por dia” e outras que nem por isso.

Se se dirigirem imediatamente ao cubículo – sem sequer agarrar em dois quadrados de papel higiénico para abrir a porta, que acumula restos de material orgânico de toda a malta daquele piso – vão, inadvertidamente, tocar no papel higiénico, ou diretamente na “boca do corpo,” com as mãos sujas. Ponto final. E, depois, à saída, ainda vão acrescentar mais umas gotas de urina fresca à tranca da porta.

Por isso é que, com ou sem pandemia, eu lavo sempre as minhas mãos antes e depois de usar a casa de banho. (E só não lavo durante porque o bidé – quando existe - fica sempre fora de mão)

Ah, e é claro que baixo a tampa da sanita antes de puxar o autoclismo. Mas estou certa que, nesse ponto, concordamos todos, ou não?